De seguidora de Jesus a personagem que divide teólogos e cultura pop
Maria Madalena reaparece no debate público sempre que a Páscoa se aproxima, reacendendo questões sobre sua real identidade, sua influência na liturgia e até mesmo o motivo de ela ser lembrada eclipsada nos textos sagrados.
- Em resumo: a discípula foi a primeira a anunciar a ressurreição, mas séculos de disputas teológicas transformaram sua imagem em enigma.
Do exorcismo ao anúncio da ressurreição
Os quatro evangelhos canônicos relatam que Jesus expulsou “sete demônios” de Maria de Magdala e, depois, ela o acompanhou até o Calvário. Marcos descreve que Madalena presenciou o sepultamento e, no domingo, encontrou o túmulo vazio, tornando-se a primeira mensageira da vitória sobre a morte — ato que fundamenta a celebração da Semana Santa e o feriado da Sexta-feira da Paixão.
“O silêncio dos apóstolos trouxe aos exegetas diferentes interpretações”, observa a pesquisadora Wilma Steagall De Tommaso, da PUC-SP.
Prostituta, santa ou apóstola dos apóstolos?
No século VI, o papa Gregório Magno amalgamou figuras femininas anônimas — inclusive a “pecadora” que ungiu os pés de Cristo — a Madalena, consolidando o rótulo de ex-prostituta. Esse estigma só foi oficialmente revisto em 1969. Já em 2016, o papa Francisco elevou sua memória litúrgica a festa, resgatando o título de “apóstola dos apóstolos”, como destacou a BBC News.
A disputa cultural e a força feminina
Do Código Da Vinci aos especiais de TV — com transmissão na Record e na Band nesta temporada —, roteiristas alimentam a hipótese de um casamento secreto com Jesus ou uma fuga para a França, inspirada em lendas medievais. Pesquisadores lembram, contudo, que manuscritos como o Evangelho de Filipe usam o termo grego “koinonôs”, que indica parceria de missão mais do que relação conjugal.
Historiadoras como Lucetta Scaraffia apontam o machismo estrutural do Império Romano para explicar por que a voz feminina de Madalena teria sido suprimida: confiar a uma mulher o primeiro anúncio da ressurreição era “escandaloso” no século I.
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Crédito da imagem: Divulgação / Getty Images