Declaração agrava tensão política enquanto violência jihadista avança no Sahel
Ibrahim Traoré — capitão que chegou ao poder após o golpe de setembro de 2022 — afirmou, na última quinta-feira (2), que “as pessoas precisam esquecer a democracia”, indicando que não pretende realizar eleições em 2024, como havia prometido.
- Em resumo: Governante militar diz que “a democracia mata” e adia indefinidamente o retorno ao voto popular.
“Democracia não é para nós”, insiste Traoré
Durante mesa-redonda transmitida pela TV estatal, o líder justificou o adiamento das urnas alegando falta de segurança para todos os eleitores. Em tom contundente, citou a Líbia como exemplo de fracasso quando, segundo ele, “atores externos tentaram impor a democracia”. O posicionamento ecoa declarações anteriores registradas pela Reuters, reforçando a percepção de um regime disposto a permanecer no poder por tempo indeterminado.
“As pessoas precisam esquecer a questão da democracia… a democracia não é para nós”, disse Traoré diante de jornalistas.
Panorama regional: golpes, sanções e recorde de civis mortos
Burkina Faso se soma a Mali e Níger em uma sequência de golpes que redesenhou o tabuleiro político do Sahel desde 2020. Os três países, ricos em minérios porém fragilizados por grupos ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, já enfrentam sanções da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e isolamento diplomático crescente.
Relatório da Human Rights Watch divulgado recentemente contabiliza 1.225 civis mortos por forças governamentais e seus aliados entre janeiro de 2023 e agosto de 2025 — mais que o dobro das vítimas atribuídas aos militantes jihadistas no mesmo período. Especialistas alertam que a escalada de abusos agrava o ciclo de violência e desloca milhões, ampliando a crise humanitária que, segundo a ONU, já é uma das piores do continente.
Analistas ouvidos por centros de estudos africanos lembram que transições militares costumam prometer segurança antes de eleições, mas raramente cumprem o cronograma. No caso burquinense, a dissolução de mais de 100 partidos em janeiro reforça o cerco às vozes de oposição, repetindo roteiro visto em Bamaco (Mali) e Niamey (Níger).
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Crédito da imagem: Alexander Kryazhev / RIA Novosti via REUTERS